Turismo de identidade valoriza cultura local e abre oportunidades para pequenos negócios



Postada em : 25/09/2026

Turismo de identidade valoriza cultura local e abre oportunidades para pequenos negócios

Mais do que conhecer um lugar, muitos viajantes buscam hoje experiências que só poderiam acontecer naquele território: uma receita feita com ingredientes da região, uma manifestação cultural, uma história contada por quem vive ali ou até o jeito de receber o visitante são elementos que tornam um destino único. Para os pequenos negócios de turismo, incorporar essas características aos pacotes turísticos pode ser uma forma de valorizar a cultura local, abrir novos mercados e criar experiências diferenciadas. O turismo representa hoje cerca de 8% do PIB brasileiro, e mais de 97% das 1,78 milhão de empresas do setor são pequenos negócios.

Segundo Ana Clévia Guerreiro, analista da Unidade de Competitividade do Sebrae Nacional, essa singularidade não está necessariamente no produto em si, mas na relação que ele estabelece com o território: “Dois destinos podem oferecer manifestações ou produtos semelhantes, mas cada território imprime características próprias a eles. É o território que confere essa singularidade”. Para os pequenos negócios, esse diferencial não depende de grandes estruturas ou investimentos — a identidade pode estar no próprio jeito de fazer e de se relacionar com o público, já que, segundo a analista, “não está vinculada ao porte do negócio”.

A comunidade como protagonista

Em Corumbá (MS), a empreendedora Thayná Cambará transformou sua relação com o território em um negócio. Fundadora da Bela Oyá Pantanal, primeira agência receptiva de afroturismo de Mato Grosso do Sul, ela criou em 2020 uma empresa inicialmente voltada à comunicação e depois direcionada ao turismo, após um processo pessoal de identificação étnico-racial. Nos roteiros, comunidades quilombolas e ribeirinhas, povos de terreiro, festas populares, religiosidade, gastronomia, música e oralidade ajudam a apresentar o que ela chama de “Pantanal Negro”, colocando os próprios detentores dos saberes no centro das experiências.

“Falar do Pantanal não é falar somente de natureza e biodiversidade, mas também das pessoas, culturas e ancestralidades que construíram e continuam construindo esse território”, diz Thayná. Para ela, o afroturismo também ajuda a distribuir os benefícios econômicos da atividade, envolvendo outros pequenos negócios locais: “É fazer com que quem historicamente preservou essas histórias e saberes também seja protagonista das oportunidades econômicas geradas por eles”.

A articulação entre empresas, poder público e comunidade é importante para fortalecer o destino. Segundo Télcio Barboza, analista do Sebrae MS e gestor de Turismo, a instituição acompanha Thayná por meio de capacitações, assessoria de negócios e do programa Agente de Roteiros Turísticos, além de missões empresariais, feiras e rodadas de negócios.

Do quintal para o turismo

No litoral do Ceará, a valorização da identidade também está no centro do projeto Quintais Gastronômicos, em Amontada, que reúne sete empreendedoras que recebem visitantes em suas próprias casas, transformando quintais, varandas e garagens em espaços de gastronomia e convivência. Segundo Luana Maura, analista técnica do Sebrae CE e gestora da Rota Costa dos Ventos, um dos objetivos é fazer com que a própria comunidade se beneficie do potencial turístico do destino: “As empreendedoras são nativas e o turista pode vivenciar essas raízes”. O trabalho do Sebrae em parceria com a Secretaria de Turismo local ajudou a profissionalizar negócios que já existiam antes do projeto — caso de Josivânia Alves Barbosa, a Dona Jô, cujo quintal gastronômico existe há quase dez anos. Para ela, a participação trouxe novos conhecimentos e trocas de experiência: “Hoje eu não chamo mais o meu pequeno negócio de ‘pequeno’. Hoje eu chamo de meu ‘grande negócio’”.

Sabores que contam histórias

No restaurante de Dona Jô, a identidade do território está ligada à história da própria família. Um exemplo é o baião de polvo, receita criada originalmente para a família e que depois passou a integrar o cardápio oferecido aos visitantes — com coco do próprio quintal, feijão cultivado pela família e pescado trazido pelo marido e pelos filhos, que sobreviveram por gerações da pesca. “Tudo isso que eu sirvo aqui vem do mar, vem da natureza, vem do amor, vem da família. Tudo isso tem uma história da gente”, conta Dona Jô, que resume a relação entre gastronomia, território e turismo em uma sequência de palavras: “sabores, saberes, identidade, vivência, troca e afeto”.

Fonte: Com informações de Agência Sebrae